A luta de Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas pela demarcação das terras indígenas do Parque Nacional do Xingu chegará às telas de cinema no ano que vem, em meio às comemorações de 50 anos da reserva. Além de atores consagrados, o filme "Xingu" conta com participação de 250 índios do próprio parque, selecionados pelo diretor Cao Hamburger, que já está no Tocantins onde acontecem as primeiras gravações.
“Serão seis personagens índios, 20 personagens secundários e mais de 200 que vão fazer figuração. Foi um processo muito estimulante de oficina de atuação no Parque do Xingu e em outras aldeias. Depois da escolha, eles tiveram muito trabalho e dedicação para aprenderem a atuar em cinema. O casting indígena vai surpreender”, afirmou Cao.
A ideia de contar a vida dos irmãos e da criação da reserva começou com Noel Villas-Bôas, filho de Orlando. “Ele procurou a produtora dizendo que a história do pai e dos tios estava esquecida e que as novas gerações precisavam conhecê-la. A produtora me chamou perguntando se eu me interessaria. Não tem como não se interessar por essa história”, disse o diretor.
A primeira expedição realizada na região do alto Rio Xingu foi em 1884, chefiada pelo alemão Karl Von Den Steinen. O local só voltou a ser explorado na década de 1940, durante o governo de Getúlio Vargas. Em 1943, a expedição Roncador-Xingu foi formada para conhecer e desbravar as terras do Brasil central. Neste grupo, estavam os três irmãos paulistas com o objetivo de abrir estradas e construir campos de pouso de emergência.
O contato inicial com a população nativa foi com os Xavantes, em 1944, e logo os Villas-Bôas se envolveram na defesa dos índios e de sua cultura. Para os irmãos, o processo de integração indígena na sociedade deveria ser gradual, de forma a garantir a sobrevivência física, as identidades étnicas e o estilo de vida de cada um daqueles grupos.
Cao Hamburger acha que as questões defendidas pelos heróis sertanistas, como são considerados, ainda estão atuais. “Apesar do filme se passar no século passado, as questões de que ele trata são extremamente contemporâneas. Trata-se da violência da sociedade dita civilizada que se expande sem tomar conhecimento e sem consciência de onde está indo e para onde quer chegar”, defende o diretor.
Os Villas-Bôas ainda idealizaram e participaram do grupo formado pelo marechal Cândido Marinho da Silva Rondon, Café Filho (então vice-presidente da República), Heloísa Alberto Torres (então diretora do Museu Nacional), o antropólogo Darcy Ribeiro, entre outros que pleitearam a criação do Parque Nacional do Xingu. Essa reserva visava preservar a fauna e a flora ainda intocada da região, assim como conservar as culturas indígenas da área.
Em 19 de abril de 1961, as fronteiras legais do parque são aprovadas. Na época, era a maior reserva indígena do mundo, do tamanho de um país como a Bélgica. Durante a expedição, todos os 19 campos de pouso abertos, 43 vilas e cidades desbravadas e 14 tribos contatadas, além das mais de 200 crises de malária, foram registrados no diário batizado de “Marcha para o Oeste”.
As anotações ajudaram nos quatro anos de pesquisa até o roteiro final. A antropóloga Maíra Buhler, coordenadora do material, reuniu informações históricas e entrevistou pessoas que conviveram com os irmãos. A locação do filme varia entre cidades do Tocantins, Mato Grosso e São Paulo.
A previsão do término das gravações é setembro deste ano. Os internautas mais ansiosos podem acompanhar as novidades do filme através do blog que vai contar histórias dos bastidores, fotos e vídeos sobre as filmagens.