A adaptação da ópera A Valquíria, clássico de Richard Wagner
Nataraj Trinta
O compositor russo Igor Stravinsky dizia: “Não basta ouvir a música, é preciso também enxergá-la”. Com objetivo de instigar a visualização e a filmagem de adaptações de óperas para o cinema, o Festival de Filmes de Ópera ofereceu em outubro ao público de Manaus, Belém, Rio de Janeiro e São Paulo uma belíssima programação com captações audiovisuais de apresentações européias recentes.
No Rio, nem mesmo a chuva foi capaz de afastar um público desejoso em conferir, segundo o crítico musical Sergio Casoy, a mais multimídia das artes no Centro Cultural Correios e no Instituto Moreira Salles. Um dos destaques do Festival foi a exibição de A Valquíria, com direção de Stéphane Braunschweig e direção musical de Simon Rattle. Inspirado na ópera homônima de Richard Wagner, o filme é de 2007 e sua última cena pode ser vista no Youtube. Com cenário minimalista, a montagem enfatiza a complexidade de Wotan, personagem central na trama.
Inspirada na lenda nórdica da Saga de Volsunga, A Valquíria faz parte de uma tetralogia baseada na mitologia alemã denominada Der Ring dês Nibelungen (O Anel de Nibelungo). Ao todo, são 15 horas de espetáculo, passando pelas obras Das Rheingold (O Ouro do Reno), Die Walküre (A Valquíria), Siegfried e Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses). Uma jornada digna de uma adaptação de nosso grande Zé Celso Martinez.
No trecho disponível na internet (Cena III do Ato III), podemos ver o Wotan castigando sua filha favorita Valquíria Brünnhilde com a mortalidade e o sono eterno por ter contrariado seus desígnios. As Valquírias eram damas da guerra que levavam as almas dos heróis mortos. Mas nem tudo está perdido, pois Wotan acata o último pedido de sua filha e invoca Loge para criar o círculo de fogo que a protegerá. Wotan define que apenas um bravo herói digno do amor da ex-valquíria ultrapassará as barreiras do fogo. Esse bravo herói ainda não nasceu, mas já se sabe seu nome: Siegfried. O filho que ainda não veio, fruto de um amor incestuoso, já está comprometido com um legado de liberdade, dor e amor.
A primeira estreia de A Valquíria foi em 1870 no Teatro da Corte de Munique. No auditório estavam presentes os músicos Liszt, Brahms e Saint-Saëns. De grande impacto, a obra possui uma das passagens melódicas mais populares na história da música ocidental: a Cavalgada das Valquírias (Cena I do III Ato) foi reproduzida em filmes como Apocalipse Now e Guerra nas Estrelas. A ópera também conta uma das frases mais audaciosas das letras do gênero: denn wo kühn Kräfte sich regen, da rat’ich offen zum Krieg (“Quando poderes audaciosos se enfrentam, eu geralmente aconselho a guerra”).
Um espetáculo que é teatro, figurino, cenário, canto, iluminação e orquestra sinfônica só pode ser uma explosão de estímulos capaz de encantar olhos e deleitar ouvidos. Um frisson indizível que encanta pela potência de seus dramas ou pela luxúria de suas exibições. Viva o Festival de Filmes de Ópera! Viva a Ópera! Viva Richard Wagner!