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09/01/2008 Diminuir tamanho da letra
1808, antes e depois... - Revisões
Diferentes releituras sobre a família real no Brasil

Datas comemorativas estimulam lançamentos editoriais. Muito justo. Às vezes, relançam-se clássicos sobre o tema – boa oportunidade para se voltar à base do conhecimento sobre o assunto. Mas a época é propícia também ao exame do que de mais sofisticado tem sido produzido nos últimos anos sobre o fato em questão – no nosso caso, D. João e o Brasil do seu tempo. 

Um ótimo começo é o pequeno 1789-1808: O império luso-brasileiro e os Brasis, de Luiz Carlos Villalta (Companhia das Letras, 2000, R$ 33,50). Em apenas 151 páginas fartamente ilustradas, o historiador traça um painel bastante original das grandes transformações no Brasil no período final do domínio lusitano. Autor de inovadora tese sobre a leitura e a circulação de livros no Brasil colonial (inexplicavelmente inédita), Villalta trata de três movimentos políticos ocorridos por estas bandas no fim do século XVIII: a Inconfidência Mineira (1789), a Carioca (1794) e a Baiana (1798), que tiveram repercussão no final do reinado de D. Maria, a louca, e no início da regência de D. João. Para completar o quadro, abre o trabalho analisando o contexto luso-brasileiro da segunda metade do século XVIII e fecha com a chegada da Corte em 1808 e seu efeito sobre as políticas dos “brasilienses”. Villalta defende a tese de que as idéias iluministas não foram simplesmente absorvidas pelos habitantes da colônia naquele tempo: tinham origens diversas e precisaram se adaptar antigas tradição políticas luso-americanas.  O autor argumenta que a vinda da sede do poder português é a realização, em parte, do projeto de alguns inconfidentes, como o estabelecimento do poder imperial em território americano e a liberdade de comércio com outras nações. Mais ainda, o livro ajuda a entender a inexistência de um Brasil (daí os “Brasis” do título) no momento exatamente anterior ao estabelecimento da Corte portuguesa no Rio de Janeiro.

O livro de Patrick Wilcken, Império à deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821 (Objetiva, 2005, R$ 47,90), é outro que não pode faltar na lista do leitor interessado. O jornalista australiano realizou um trabalho primoroso, enriquecido com fontes pouco conhecidas no Brasil, e compôs um quadro bem realista do período joanino. Erudita e ágil (apesar das mais de 300 páginas, lê-se de uma tacada), a obra refaz o cenário político europeu, colocando Portugal e sua relação com a mais rica das colônias em perspectiva – e sem vícios nacionalistas, brasileiro ou português. Trabalho de rigor historiográfico (não há uma afirmação sem apoio em fonte), surpreende ao articular a “grande política” internacional ao dia-a-dia nas ruas do Rio de Janeiro.

Jurandir Malerba, por sua vez, faz em A corte no exílio: civilização e poder no Brasil às vésperas da Independência (1808-1821) (Companhia das Letras, 2000, R$ 60,50) uma profunda reflexão sociocultural sobre a presença de D. João no Rio. O impacto da instalação de uma corte de Antigo Regime europeu na mais importante praça comercial escravista do Novo Mundo havia sido até então apenas enunciado. Malerba, por meio  de uma análise histórica e sociológica inovadora, mostra como estes modelos se relacionaram em ocasiões-chave como as festas e os rituais da corte, dando origem a modelos de sociedade e de atuação política singularíssimos. A teatralidade dos eventos que tiveram como palco o Rio de Janeiro assume no discurso do autor um aspecto muito mais do que o meramente cenográfico, revelando o caráter da civilização que se formava.

Por fim, um clássico do presente. Corcundas e constitucionais: a cultura política da independência (Revan, 2003, R$ 44,00), de Lúcia Bastos Pereira das Neves, é uma das análises mais completas da cultura política que desembocou na separação entre Portugal e Brasil, em 1822. Ligando os dois lados do Atlântico, Lúcia Bastos consultou uma quantidade impressionante de documentos, dos quais os mais interessantes são os panfletos que vieram à luz entre os anos de 1820 e 1822, dando conta das aspirações políticas dos súditos de D. João. A historiadora articula com habilidade as idéias políticas em circulação no mundo luso-brasileiro com os interesses dos agentes envolvidos em acontecimentos como a Revolução do Porto. No livro, obrigatório para se conhecer este momento da História do Brasil, a autora mostra como a inversão da situação Metrópole-Colônia no início do século XIX acabou sepultando aos poucos a possibilidade de um império português transatlântico. Apesar da atenção dada à conjuntura política, Lúcia Bastos não descuida dos papéis desempenhados por homens de carne e osso, como o príncipe-regente D. Pedro, que aparece neste trabalho como um personagem muito diferente do jovem abrutalhado e femeeiro que entrou para o folclore político nacional. O futuro imperador surge como um personagem complexo, ao mesmo tempo sagaz e voluntarioso, mas, assim como os demais atores do drama do nascimento do Brasil, limitado pela cultura política do seu tempo. (Rodrigo Elias)

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