Fez-se um mito

Morto há um século, Euclides da Cunha se eternizou na memória nacional

Regina Abreu

  • O Brasil celebra o legado de Euclides da Cunha no centenário de sua morte com eventos, ensaios, cadernos especiais e colóquios. Escolas, centros culturais e Pontos de Cultura de todo o país organizam exposições e debates. Após longos anos de preparação, é lançado em circuito nacional o primeiro longa-metragem sobre a vida e a obra do escritor, “A paz é dourada”, de Noilton Nunes.

    Todas essas homenagens remetem à perenidade de Euclides da Cunha na memória nacional. Como explicar este fenômeno? Ele foi um republicano exemplar, engenheiro dos mais competentes, naturalista dedicado e ainda sociólogo, folclorista e historiador que se propôs a descrever em detalhes uma região e uma população até então ignoradas pela história oficial: os sertões do Norte e os sertanejos.

    O interesse despertado por Euclides da Cunha certamente está relacionado à gênese e à consagração do clássico nacional, Os Sertões (1902). Mas outro aspecto significativo e pouco estudado também contribui para explicar a presença do escritor no pensamento social brasileiro tanto tempo após a sua morte. Para muitos admiradores, a própria trajetória de Euclides, indissociável da leitura de seus escritos, merece ser lembrada. O autor concebeu sua vida como obra, afirmando suas ideias por meio de atitudes e projetos que expressavam o estilo de pensar e de militância política forjado na virada do século XIX para o século XX. Audacioso, incorruptível, idealista, Euclides da Cunha era um ardoroso republicano, defensor da ciência como parâmetro e guia para uma sociedade mais igualitária e inclusiva.

    Nascido em 1866 numa fazenda de café em Cantagalo, no Vale do Paraíba carioca, Euclides perdeu a mãe aos três anos de idade. Lançado num turbilhão de mudanças inesperadas, o menino foi obrigado a viver com parentes devido às dificuldades do pai, que trabalhava como guarda-livros das fazendas de café. Nesta segunda metade do século XIX, o imperador D. Pedro II governava o país, dominado por grandes proprietários de terras e de escravos. Eram poucas as possibilidades de ascensão social e as oportunidades de acesso a uma carreira intelectual ou literária para um jovem que vivia como agregado na casa de tios, contando com parcos recursos materiais. Como, então, Euclides tornou-se um dos escritores mais consagrados do país?

    Algumas explicações residem em suas escolhas durante o período de formação. Em função das dificuldades financeiras e familiares, o jovem Euclides faz a opção pragmática de estudar engenharia na Escola Militar, no Rio de Janeiro, onde receberia um soldo. Tão importante quanto a independência financeira seria o contato do estudante com os valores da modernidade. No início da década de 1880, vigorava na Escola Militar da Praia Vermelha o princípio do mérito e a mentalidade cientificista, em contraste com a sociedade patriarcal, rural e hierarquizada. Euclides torna-se logo um republicano, defendendo os pressupostos evolucionistas da ascensão dos povos, pelo progresso, aos valores da civilização. A causa republicana para ele vinculava-se ao princípio do talento e do mérito, em oposição às regras da sociedade de corte, em que os privilégios eram assegurados pela proximidade com o imperador.

    Em 1888, o ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, faz uma visita à Escola Militar. Perfilado no pátio junto aos seus colegas de farda, Euclides decide expressar publicamente seu descontentamento com o Império e, quando o ministro passa à sua frente, sai de forma e atira aos seus pés a carabina e o sabre-baioneta dando vivas à República. A atitude intempestiva poderia ter destruído de uma só tacada a carreira do jovem cadete. Mas o momento lhe é favorável: ele recebe apoio dos setores republicanos mais avançados e ainda é convidado a escrever no jornal A Província de São Paulo (futuro O Estado de S. Paulo). A nova função permite-lhe interagir com intelectuais anticlericais, antiescravagistas e antimonárquicos. Pouco depois a República é proclamada, e Euclides passa a ser reverenciado como o intrépido estudante que ousou enfrentar o poder constituído. Reintegrado ao Exército com honras e prestígio (após seu afastamento por “incapacidade física”), mantém-se como articulista de O Estado de S. Paulo, que em 1897 o envia para acompanhar o conflito em Canudos.

    Euclides da Cunha consagra-se então como o primeiro correspondente do importante jornal paulista, contribuindo para inaugurar o que hoje chamamos de reportagem. A descrição da viagem, a etnografia do local e da guerra e os questionamentos de Euclides em relação ao envio das tropas aos sertões baianos pelo recém-fundado Estado republicano serviram de base para o livro que escreveria mais tarde sobre os acontecimentos em Canudos. O sentimento de perplexidade manifestado em suas reportagens está também relacionado à sólida formação na Escola Militar. Em grande parte, foram suas leituras quando jovem que lhe permitiram reconhecer na truculência imposta aos sertanejos de Canudos a mais sórdida expressão da barbárie republicana. “Não era esta a República dos nossos sonhos”, confessa.

    A formação intelectual de Euclides também foi uma ferramenta importante para descrever a fauna, a flora, a geografia, a geologia e, sobretudo, a população singular dos sertões do Norte. Isolados por mais de um século, os sertanejos são considerados por Euclides protótipos do povo brasileiro, aqueles a quem o Estado-nação brasileiro deveria proteger e incluir. “Não deveriam ter enviado soldados”, diz ele, “e sim mestres-escolas”. O escritor compartilhava seus dilemas com outros intelectuais do período, como Sílvio Romero, Araripe Junior e Tobias Barreto, que propunham uma nova agenda para o milênio que se iniciava, valorizando o pensamento científico e inaugurando pesquisas acadêmicas sobre o país.

    Euclides reproduziu em sua vida pessoal os princípios que guiavam suas convicções éticas, políticas e profissionais. Sua retidão e sua integridade eram notórias. Para o cientista e literato não havia meios-termos e meios-tons. Tampouco o “jeitinho” e a ambivalência. Dotado de um temperamento intempestivo, decidiu agir em defesa de sua honra ao descobrir que a esposa, Anna de Assis, o traía com um cadete do exército, Dilermando de Assis, o que o levou a desafiá-lo para um duelo. Levando a pior, morreu baleado pelo jovem cadete no dia 15 de agosto de 1909.

    Impulsionada pelo acontecimento extraordinário, a imprensa não poupou elogios a Euclides, ressaltando características como o “esforço de vontade quase sobre-humano” e a “legítima ambição de glória”. Tratava-se de um “homem de letras”, “um patriota” e “um cientista”, uma “vida exemplar” em que o “puríssimo caráter”, o “prodigioso talento e a imensa ilustração” eram admiráveis. A natureza trágica do episódio tornava ainda mais espetacular a ampla cobertura jornalística. Euclides da Cunha virou personagem, objeto de um culto que perduraria por muitos anos, acrescentando às qualidades atribuídas ao grande escritor a de mártir nacional.

    No dia seguinte ao ocorrido, longas romarias se formaram no necrotério e, depois, na Academia Brasileira de Letras, onde Euclides foi velado. Olavo Bilac, Rui Barbosa, José Veríssimo, Sílvio Romero, Afrânio Peixoto e Júlio de Mesquita acompanharam o cortejo, que “compunha-se de mais de 300 carros”, seguindo pela Avenida Beira-Mar em direção ao Cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo.

    Diversas instituições puseram em marcha uma série de homenagens e manifestações de pesar. O maranhense Coelho Neto, um de seus amigos mais íntimos, fez um discurso na Câmara apresentando Euclides da Cunha como um “homem do interior”, voltado não apenas para o “Brasil periférico”, mas principalmente para o “Brasil dos sertões”. Coelho Neto fazia referência ao fato de Euclides ter nascido no interior do Estado do Rio, e por isso dotado de sensibilidade para compreender e expressar a vida do “Brasil real”. Ideias como essas permitiram a construção póstuma da memória do escritor nos anos que se seguiram.

    Nasciam os “euclidianos”, ou “euclidianistas”. No primeiro aniversário de morte do escritor, seus amigos e admiradores iniciaram um movimento “por protesto” contra a absolvição de Dilermando e “por adoração” a Euclides da Cunha. Reunidos em frente ao seu túmulo, no Cemitério São João Batista, fizeram o juramento de levar adiante sua palavra. Entre os iniciadores do movimento estavam o escritor amazonense Alberto Rangel e o maranhense Coelho Neto. Na mesma época, foi criado o Grêmio Euclides da Cunha, que funciona até hoje, com o objetivo de estudar e divulgar a obra do escritor. Alguns anos depois, precisamente em 15 de agosto de 1912, em São José do Rio Pardo – onde Euclides escreveu Os Sertões –, amigos e admiradores fiéis passaram a homenagear o escritor nos seus aniversários de morte criando as “semanas euclidianas”, importante evento dedicado à reflexão sobre a vida e a obra do escritor que passou a se repetir todos os anos perdurando já por quase um século. A visita ritual à cabana de madeira com telhado de zinco onde a obra-prima foi escrita transformou-se num dos pontos altos da celebração. Em 1938, o casebre seria tombado como monumento histórico pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A casa onde Euclides residiu com a família foi restaurada e sua gestão foi confiada ao governo de São Paulo.

    Em 1917, Edgar de Mendonça lançou um “Plano de Campanha” em que expunha os objetivos do “movimento euclidiano”: realizar um meticuloso trabalho de levantamento de fontes, fotografias, cartas, documentos, relíquias e livros que pertenceram ao escritor ou que figuram como referências em suas obras. O Grêmio Euclides da Cunha, formado em 1925 com vinte e dois sócios (sete dos quais haviam participado da primeira romaria), veio coroar o movimento em São José do Rio Pardo. Os euclidianos elaboraram diversos projetos de difusão do pensamento do escritor, produzindo novas edições de Os Sertões, ampliando os estudos e as pesquisas e fazendo contato com editoras estrangeiras para a publicação da obra no exterior. As reedições de Os Sertões proliferaram desde a primeira publicação e houve empenho para sua introdução como leitura obrigatória nas escolas.

    Jamais havia sido feito no Brasil tamanho esforço de preservação e divulgação da memória de um escritor. Euclides da Cunha é considerado o porta-voz da nacionalidade autêntica, valorizando o Brasil profundo do interior e dos sertões do Norte.

    Para muitos, o escritor encarna o “bom caipira” que “reconhece o sertão como berço da nossa civilização”. Essa identidade fundamental que une o autor à nação, sublinhando as raízes interioranas de ambos, talvez seja uma das explicações possíveis para a permanência de Euclides no imaginário nacional. Além disso, ao conferir um papel decisivo à geografia como elemento modelador das diferenças regionais e ao defender o expansionismo territorial e o sertanismo, transformou-se num personagem inspirador tanto para outros escritores como para homens públicos.

    E qual o legado de Euclides da Cunha hoje? O antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987) ressalta que o escritor conseguira vislumbrar novos horizontes mesmo tendo sido influenciado pelos debates intelectuais do período em que viveu, no qual a tônica eram as explicações deterministas que enfatizavam os componentes raciais. Os Sertões, que já foi chamado de “Bíblia da Nacionalidade”, afirma novos valores e propõe abordagens literárias e científicas até então pouco exploradas. Em Perfil de Euclides e outros perfis (1944), no entanto, Freyre lastima a rigidez do pensamento do autor, ao opor o litoral e o sertão. Uma conciliação dos antagonismos em suas interpretações do Brasil poderia ter reabilitado o litoral culturalmente rico e plural, que sairia renovado com a descoberta dos sertões. E não seria exagero supor que, caso Euclides tivesse incorporado um pouco da plasticidade descrita por Freyre ao seu temperamento combativo e obstinado, talvez sua vida tivesse outro desfecho. Nós, certamente, sairíamos ganhando, pois o país não teria perdido um de seus maiores talentos literários e científicos em pleno apogeu, com apenas 43 anos de idade. 

    Regina Abreu é antropóloga, professora da UNIRIO e autora de O Enigma de Os Sertões (Rio de Janeiro: Rocco/Funarte, 1998).

    Saiba Mais - Bibliografia:

    ARARIPE JUNIOR, Tristão de Alencar. Obra crítica de Araripe Junior. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1970.

    FREYRE, Gilberto. Perfil de Euclides e outros perfis. Rio de Janeiro: Record, 1987.

    ROMERO, Sílvio. “Discurso de recepção a Euclides da Cunha”, Revista da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, vol. 2, abril de 1911.

    SOUZA ANDRADE, Olímpio. “Instantâneo intelectual”. In: Cunha, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1986.
     

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