Desditosa sina

A perda da mãe, a infância nômade, o temperamento explosivo, a retidão inegociável... Tudo em Euclides conspirava para uma vida turbulenta. E um fim trágico

Leopoldo M. Bernucci

  • Impossível alguém examinar de perto a biografia de Euclides da Cunha sem se sentir solidário com ele. Vista de uma perspectiva heróica, sua existência parece repleta de grandes realizações. Porém, quando observada pelo prisma dos pobres mortais, a vida de Euclides pode parecer até mesmo patética. E irremediavelmente triste.

    Sua penosa trajetória anunciava-se desde muito cedo, para o menino que se tornara órfão de mãe aos 3 anos e sofrera os efeitos de constantes mudanças de residência na infância, morando com parentes. Desgarrado como foi desde criança do seio familiar, o pequeno Euclides iria sentir o vácuo deixado pela imagem materna até seus últimos dias. A visão de uma mulher de branco, supostamente encarnando sua mãe, dona Eudóxia Alves Moreira, viria assombrá-lo mais de uma vez. A última aparição seria durante sua longa (e derradeira) viagem, para a Amazônia. Justo ele, que se considerava tão cético em relação às coisas sobrenaturais, não conseguiria se desvencilhar desse “fantasma”. Esse dado da psicologia do escritor merece atenção: toda a ciência não lhe bastava. Euclides atravessou a vida dividido entre as forças racionais que sua educação lhe tinha oferecido e o mundo misterioso que povoava seu pensamento. E ele se esforçou até o fim para conciliar esses contrários.

    Dominado por um gênio forte e um caráter temperamental – que alguns chegaram a qualificar como doença –, Euclides teve que combater seus demônios interiores de modo constante. Era uma árdua batalha, tanto para impor suas ideias como para defender seus princípios. Coragem para isso nunca lhe faltou. O exemplo mais lembrado é o do incidente provocado pelo seu espírito inquieto de jovem republicano, quando afrontou o ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, na Escola Militar. A rebeldia teria graves repercussões em sua carreira. E seria a primeira de muitas.

    Sua eloquência em defesa do republicanismo só fez crescer o seu prestígio entre os militares e republicanos. Entre dezembro de 1888 e julho de 1889, sob a tutela de Júlio de Mesquita, editor do jornal A Província de S. Paulo (hoje O Estado de S. Paulo), publica quatorze artigos protestando veementemente contra o Império de Pedro II e exortando os leitores a abraçar a nova causa revolucionária que estava fermentando. No período seguinte (1890-1892), serão mais trinta e cinco artigos sobre assuntos diversos publicados no jornal Democracia (RJ) e em O Estado de S. Paulo. 

    Seguiram-se vãs tentativas de se estabelecer como professor, mais especificamente no Instituto Politécnico de São Paulo, onde nem mesmo a influência de amigos e todo o seu conhecimento e perícia de engenheiro o favoreceram. Pesaram contra ele, mais uma vez, sua personalidade irascível e sua franqueza desmedida. Em 1892, no momento em que pleiteava a vaga, publicou dois artigos criticando severamente a orientação acadêmica do Instituto. Lá se ia a breve ilusão de poder ocupar um lugar condizente com sua estatura de homem de letras e ciências.

    Nem bem a República havia celebrado seu quarto aniversário, ele entrou em novo atrito público com os militares. Uma bomba explodiu nas instalações do jornal O Tempo, no Rio de Janeiro, como desdobramento da Revolta da Armada, que contestava a legitimidade do mandato do marechal Floriano Peixoto. Partidário do presidente, o senador cearense João Cordeiro defendeu a execução sumária dos envolvidos no atentado. É quando Euclides vem a público protestar contra a bárbara penalidade proposta, em duas cartas publicadas  na Gazeta de Notícias de 18 e 20 de fevereiro de 1894. Sua atitude de bravura obviamente é vista como afronta por Floriano Peixoto e atrai a desconfiança dos chefes militares, que aos poucos o afastam do campo de ação, terminando por transferi-lo para a pacata cidade mineira de Campanha.

    Mas o ato de coragem mais notável de Euclides da Cunha ainda estava por vir. Sua atuação na quarta expedição militar contra Canudos, em 1897, transformará para sempre a sua vida e o colocará no lugar dos privilegiados e imortais. Casado havia sete anos e com dois filhos ainda muito pequenos, Euclides acompanha as forças do Exército como repórter de O Estado de S. Paulo com a missão de fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos. Não é necessário enfatizar os perigos dessa empreitada. Euclides poderia não ter sobrevivido. Maior do que a ousadia de enfrentar a missão foi a decisão de denunciar a inépcia, o fanatismo e a falta de sensibilidade do Exército em Canudos. Passou a imputar as responsabilidades de um crime nacional aos governantes e a toda a intelectualidade aferrada ao litoral, e totalmente descuidada do interior. Daí o seu grito de protesto e indignação – e também um mea-culpa por ter compartilhado com a elite o descaso e a negligência em relação às populações dos sertões.

    Ao escrever Os Sertões, propôs uma radiografia do país, revelando suas mais profundas entranhas e dissecando as diferentes camadas de uma nação de contrastes. Reunindo vários saberes em pouco tempo – científicos, históricos, filosóficos, literários –, ele reinterpretou fatos históricos e promoveu uma releitura de nossa formação racial, despertando a consciência de um país sonolento para as questões sociais. O livro dilacera o coração da jovem nação republicana, que aspirava ansiosamente à modernidade, fazendo-a entender que o progresso desenfreado representava mais um mal do que um bem: “Pouco nos avantajávamos aos rudes patrícios retardatários”.

    Euclides saiu vitorioso da fase Os Sertões. A fama que granjeou depois de sua publicação, em 1902, permitiu-lhe momentos de felicidade como nunca havia alcançado. Sua vida matrimonial, por outro lado, começava a se deteriorar. A profissão de engenheiro o obrigava a mudar-se de residência com a família várias vezes e absorvia sua criatividade artística e o impagável tempo que ele gostaria de ter tido para se dedicar aos estudos e escritos. É a partir desses anos que Euclides se transformará, definitivamente, em um ser melancólico, em torno do qual tudo parece desabar.

    De 1896 até 1903, exceto pelos três anos passados em São José do Rio Pardo (SP) – supervisionando a reconstrução de uma ponte –, Euclides trabalhou duramente como engenheiro para a Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Abominava o posto, e ainda viu seu salário ser reduzido devido à crise do café. Ironicamente, ele, que acabava de conquistar a glória literária e o respeito intelectual de seus colegas, chegou à degradante situação de ter que procurar emprego. Em 1904 conseguiu um cargo, mas sua maré não melhorou: nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, logo se desentendeu com Hugh Stenhouse, gerente da empresa inglesa City of Santos Improvements – prestadora de serviços públicos –, e com Eugênio Lefevre, diretor da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Tudo indica que a origem da divergência foi seu comportamento inegociavelmente íntegro e sua retidão de caráter.

    No ano seguinte, abre-se na vida do escritor um novo sonho, e mais uma chance de fugir das dificuldades do lar: a viagem para a Amazônia, como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Permanece quase um ano na selva, enfrentando toda sorte de perigos, enquanto sua mulher o trai com um jovem militar no Rio de Janeiro. Volta da aventura debilitado pelos efeitos da malária. Em casa, a vida familiar já estava destruída. Mais uma vez, lança mão da coragem impulsiva e comete o ato suicida de acertar contas com o amante da esposa, que tem clara vantagem emocional e superior destreza no manejo de armas de fogo.

    Era o fim previsível de quem traçou para a própria vida uma inexorável linha reta.

    Leopoldo M. Bernucci é professor da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e autor de Discurso, ciência e controvérsia em Euclides da Cunha (Edusp, 2008).


    Saiba Mais - Bibliografia:

    PONTES, Eloy. A vida dramática de Euclydes da Cunha. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938.

    RABELLO, Sylvio. Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Instituto Nacional do Livro, 1983.

    TOCANTINS, Leandro. Euclides da Cunha e o paraíso perdido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, l978.

    VENTURA, Roberto. Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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