Linguagem de violência

Mensagem deixada pelo ano que passou foi que vivemos a democratização de uma mentalidade militarizada e vingativa. Da repressão policial aos Black Blocs e brigas de torcida, a ira está enraizada há décadas na sociedade brasileira

Nashla Dahás

  • “A minha alma está armada e apontada para a cara do sossego... porque a paz sem voz não é paz. É medo”.

    (Minha Alma. O Rappa)

    Retrospectiva 2013. Ainda nas primeiras décadas do século XX Freud alertara para o “perigo das massas”, ou seja, para o fato de que o grupo oferece ao indivíduo a chance de libertar seus “impulsos instintuais inconscientes” da repressão gerada pelas regras de convivência social. Mas não só. O psicanalista sofisticou a questão ao apontar que esses impulsos podem ser perfeitamente contraditórios, sem que isso apareça como um conflito capaz de trazê-los à consciência. E, assim, aquilo que hoje é por vezes entendido como doença da sociedade contemporânea – moral, política, psíquica, etc. -, talvez, Freud já visse a partir de certa consciência histórica humana cuja tendência é a irracionalidade acompanhada da violência de qualquer ruptura com padrões estabelecidos de comportamento social. Não há dúvida, explicava ele, de que existe algo em nós que é sugestionado pela emoção do outro, e que nos contagia de uma energia de pertencimento, liberdade e onipotência das quais é quase impossível fugir. Quase. Ainda assim, seus casos clínicos demonstravam que a resistência e a reação contrária à emoção grupal surgiram aqui e ali. Enfim, não se tratava de uma regra, mas de uma tendência capaz de explicar racionalmente parte da imprevisibilidade dos indivíduos quando tomados pelo espírito de massa.

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    Alguns anos mais tarde, ao “espírito”, aliaram-se objetivamente as ideias, combinações quase mágicas de palavras com força suficiente para fazer curvarem-se sociedades inteiras. Foi assim que entre as décadas de 1930 e 50 o mundo conheceu o que apenas muito depois seria chamado de Holocausto, associando-se ao poder das massas, as ideologias e a figura de uma liderança carismática diante da qual, todos, em alguma medida, sentiriam espécie de fascinação. O fascínio no Brasil ganharia o nome genérico de “populismo” e até os anos de 1960 seria atrelado à imagem de Getúlio Vargas, a um só tempo, “ditador” e “pai dos pobres”. Aos olhos da “boa sociedade” econômica e intelectual, a irracionalidade popular de que Freud falava surgira no apoio ao autoritarismo e foi explicada pela via da manipulação, do primarismo a que o indivíduo pode ser levado quando se sente parte de alguma coisa maior e mais poderosa.

    A propaganda (política) parecia enfim ter chegado ao Brasil como fator inegável de motivação das pessoas comuns. Ainda que anacronicamente – do ponto de vista do rigor histórico - pode-se dizer que se iniciava um longo e ambíguo processo de combinação entre o mistério da representação política e a autonomia individual e coletiva pela conquista da linguagem. A grande imprensa parcial e engajada ensinava o léxico político, enquanto a população fazia as associações entre as questões sociais e a vida cotidiana. Foram cerca de dez anos até que política, história e sociedade constituíssem uma cultura romântica e autodenominada radical que embeveceu grupos de estudantes e trabalhadores em nome da revolução socialista e/ou da oposição à ditadura. Eles começaram a construir o que - achavam - seria uma nova história para o país, interpretado a partir de sua capacidade de “dar voz aos oprimidos”, segundo uma expressão comum da época. Diante da censura e do terrorismo de Estado, a “voz” popular teria de ser representada por aqueles que se colocavam numa posição de vanguarda. Esse exercício se deu, muitas vezes, por meio da violência, da guerra de guerrilha.

    Violência, representação e linguagem

    Desde então, os anos de 1970 são um marco para a trindade violência, representação e linguagem. Isso porque a violência revolucionária foi abatida pela repressão da máquina de investigação e tortura do regime militar que, por sua vez, estabeleceu um padrão de violência policial e de repressão social mantido até os dias atuais. A representação saiu vitoriosa, em forma de pacto social legislativamente perfeito, formalmente democrata e minado em suas bases pela desigualdade social e pela desproporção de poderes que lhe deu origem durante o processo de redemocratização. Esse “projeto” de país também vinga até hoje. A linguagem pode ser ironicamente equiparada ao terceiro elemento do lema revolucionário francês; se liberdade e igualdade se forjaram em projetos políticos distintos tais como liberalismo e comunismo, a fraternidade acabou se perdendo enquanto ideia-força capaz de sustentar o funcionamento das sociedades. Nos últimos quarenta anos, é provável que um dos maiores desafios brasileiros tenha sido o da expressão popular, com tudo o que o termo “popular” apresenta de complexo e abrangente.

    Movimentos sociais com pautas específicas como o LGBT ou o Negro têm recebido do Estado compensação para suas demandas em forma de leis chamadas afirmativas e de reparação, mas o grosso da sociedade permanece sem canais de comunicação com as instâncias de poder, incluindo-se aí a geração pré-golpe de 1964 arrasada em seus direitos políticos, as várias classes de trabalhadores cuja cidadania é exclusivamente a cidadania do consumidor, os moradores de regiões mais afastadas dos centros urbanos impedidos de ir e vir pelo caos do transporte público, intelectuais e estudantes submetidos à burocratização do saber e à cientifização das humanidades, populações de comunidades dominadas por milícias ou entregues à pacificação cada vez mais duvidosa da polícia militar, entre muitos outros grupos. Em todos esses casos, são tantos os anos acumulados de fatos e pensamentos não transmitidos, e de uma falsa e inconformada resignação que todos parecem muito habituados ao silêncio, à invisibilidade e ao esquecimento.

    Na mão contrária à via do “progresso”, as ações de massa ou os sintomas de que ainda fazemos parte de uma coletividade tem ficado por conta da repressão a toda e qualquer tentativa “libertária”, no sentido mais simples que o termo pode adquirir. Essa liberdadezinha, pequena e custosa, de todo o dia, de ir e vir, de pensar, de falar, de protestar, de querer, de ser. Eis alguns exemplos.

    Baderneiros e justiceiros

    A Comissão da Verdade forjada ao longo dos últimos anos teria por missão tirar a sociedade dessa letargia em que – talvez - as estratégias oficiais de esquecimento tenham se alimentado da culpa social em relação ao nosso passado político mais recente. Criar consciência histórica e memória coletiva em torno das violentas ações de guerrilha, dos justiçamentos e das humilhantes torturas a que foram submetidos diversos grupos de esquerda não tem sido nada simples. Não há discussão pública sobre o assunto, envolvimento social espontâneo, nem trabalho efetivo mais evidente por parte da Comissão nesse sentido. Há rumores de fraudes e uma clara desarticulação de informações; pouco ou nenhum interesse político em tornar essas questões parte do senso comum.

    A truculência policial de força desproporcional contra estudantes e manifestantes de forma geral tornou-se, em 2013, marco da democratização de uma mentalidade militarizada e vingativa. Professores se viram levados ao tribunal, acusados de abandono de cargo, como punição por terem paralisado aulas e ruas do Rio de Janeiro a fim de melhores condições de trabalho. Estudantes foram presos em meio às manifestações sob a caracterização de crimes como formação de quadrilha, porte de armas e destruição do patrimônio público, por vezes, acusação esta, real e legítima. Na esteira desses acontecimentos um cidadão (Amarildo) se tornou personalidade pública ao ser torturado e assassinado por um conjunto de policiais no quintal de uma Unidade de Polícia Pacificadora. Sempre em bando, policias foram sucessivamente filmados cometendo crimes de abuso de autoridade e excesso de violência, assédio, espancamento, e implante de provas em diversas situações, sobretudo, contra vitimas mulheres.    

    De outro lado, Black Blocs levantaram bandeiras anarquistas apresentando-se como linha de frente civil dos protestos populares. Sempre em grupo, algo como a libido dos jovens transbordava a cada desfile no qual, antes de quebrarem bancos, concessionárias e alguns poucos comércios à pauladas, apresentavam-se vestidos de preto e com o rosto coberto aos manifestantes que os aplaudiam. Na maioria, muito jovens, muito magros, e de variadas classes sociais, eles conseguiram fazer com que parte das classes médias bairristas expressasse publicamente a sua pré-disposição pela repressão exitosa da polícia militar em relação ao que consideram “baderneiros”.

    Para fechar o ano, a população pôde assistir ao torpor maior da violência coletiva que durante os onze meses anteriores dera mostras significativas de sua força: duas torcidas organizadas massacraram coletivamente um torcedor do lado oposto a socos e pontapés na cabeça. As cenas foram transmitidas ao vivo por uma rede de televisão aberta.  

    Torcidas de Vasco e Atlético/PR brigam durante partida da última rodada do Campeonato Brasileiro /Foto: ReproduçãoMarionetes do amor

    De onde vem tanta ira? Como grupos tão diferentes se deixaram levar pelo espírito quase hipnótico e arcaico da raiva coletiva? Onde podemos encontrar ferramentas para compreender a sociedade brasileira atual, num momento em que as nossas instituições se mostram aos pedaços desde suas bases, há muito corrompidas? Para onde caminha o mito do brasileiro pacífico, democrático e altruísta?

    Retomando as ideias que abrem esse texto, sobre a impulsividade e a irritabilidade de um grupo, Freud mostrara como fazia sentido o esforço para compreender os laços afetivos e os sentimentos a que o indivíduo só consegue dar vazão quando tomado pela onipotência e pela paixão do coletivo. A esse respeito, inclusive, citou como dois grandes exemplos o Exército e a Igreja; instituições onde, por excelência, uma qualidade emocional comum alimenta a identificação entre os membros do grupo. Segundo Freud, uma explicação poderia ser encontrada no amor: “O amor por si mesmo só conhece uma única barreira: o amor pelos outros, o amor por objetos”. Quando “apaixonados” pelo outro, pela causa ou pela sensação de pertencimento, os impulsos emocionais particulares e os atos intelectuais do individuo se tornariam frágeis demais “para chegar a algo por si próprios”; dependeriam inteiramente de serem reforçados por sua igual repetição no(s) outro(s). 

    Quase um século depois, a trilha da psicologia política abre novas possibilidades de entendimento do presente. Nelas, não é mais o amor, e sim “o ódio que penetra nas situações civis modelares e sob as fachadas bem organizadas aponta a fúria assassina; (...) Há muito o público se acostumou a traduzir de maneira rotineira a violência real, em meras imagens que entretém e atemorizam, que advogam e informam”, cita o historiador e filósofo Peter  Sloterdijk, em seu Ira e Tempo (2012). Retomando o primeiro milênio antes de Cristo, o autor discorre sobre o longo caminho que levou o Ocidente das “virtudes heroico-belicosas gregas” para as “vantagens citadino-burguesas”, nas quais a ira foi aos poucos desaparecendo como qualidade humana. 

    “Narciso, porém, não pode ajudar Édipo”. Aprofundando e, por vezes, subvertendo as proposições freudianas do começo do século XX, Sloterdijk lamenta que estes personagens tenham sido socialmente elevados ao nível de emblemas da condição humana. O único objetivo de poder-se declarar o adorador da própria imagem e o igualmente miserável amante de sua mãe como paradigmas da existência humana seria o de retratar o homem como marionete do amor. Para tanto é que o moralismo cristão e a psicanálise clássica estariam desapercebidamente unidos; duas ferramentas cada vez mais incapazes de compreender aquilo que move o homem contemporâneo: a luta pelo reconhecimento. Em parte, também se deve somar o fracasso dos chamados “radicalismos modernos”, de nossos anos 60, que tentaram indicar caminhos de satisfação para a ira coletiva nunca antes percorridos, mas que sucumbiram diante da força de instâncias moderadoras como o parlamento, os tribunais, o Exército e os debates públicos, restando-se daqueles apenas o ressentimento.

    Estes seriam alguns apontamentos sobre os conflitos mais profundos que vem marcando a primeira metade do século XXI e que parecem tramados, sobretudo, pelos “coletivos irados”, e pelas civilizações, sociedades e grupos historicamente ofendidos. Afinal, aberta, ou veladamente, todas as culturas não são sempre também arquivos de traumas coletivos, pergunta-se o filósofo alemão.

    Entre nossos males coletivos materializados em clara repressão social e em leis que favorecem o Estado muito mais do que a seus cidadãos; e os pendores sádicos e autoritários que determinam essas leis – nas palavras da escritora brasileira Clarice Lispector – podemos notar todo o êxtase que acompanha esse momento de crise de uma identidade brasileira cristalizada e oficial. Da fenda que se abre nessa estrutura histórica familiar e domesticada, talvez esteja nascendo a percepção de uma estranha e muito atraente liberdade, em que as noções de presente, passado, espaço e tempo, importem menos do que a capacidade de dar expressão a todo um conjunto de movimentos espontâneos próprios a cada um de nós.  

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