Cada um na sua

Defendido e exaltado, o individualismo exacerbado seria uma fórmula para o fracasso da sociedade civil, regida por um Estado controlador e repressor

Bruno Garcia

  • Foto: EBC

    Aconteceu em Copacabana. Era só mais um dos muitos ônibus, entre as muitas linhas que cortam o bairro. Não era verão, mas o dia estava quente e, como é de costume, o ônibus não tinha ar condicionado. Sentei no único lugar cujo ângulo entre a poltrona e a janela prometia algum respiro quando escapássemos do trânsito. Ficava exatamente atrás do motorista, talvez um metro mais alto. O ritmo modorrento - andando 10 metros, parando por 3 minutos, andando 10 metros, parando por 3 minutos – não acovardou o motorista que, depois de assistir a um taxi rapidamente trocar de faixa e tomar sua frente (roubando, provavelmente, 15 segundos do seu tempo), resolveu cutucar o infeliz. A batida foi milimétricamente planejada. Nada que pudesse causar maiores danos aos veículos, mas o suficiente para fazer o taxista descer espumando raiva. Ali, no meio da avenida fervendo, às 11 da manhã, cumpriram seu ritual de carioca-muito-macho, gritando ameaças e palavras de ordem. De tão caricato, o episódio parecia saído de um capítulo de Malhação. Os bravos homens, que há pouco se desentendiam por 15 segundos de vantagem, agora secavam o suor, gritavam despautérios a distancia parando uma faixa da pista. Lembravam ali, tragicamente, dois náufragos que, diante de uma fúria incontrolavam, furavam um o casco do barco do outro. Faltou quem os lembrasse de que, afinal, dividiam a mesma embarcação.

    Provavelmente você já testemunhou ou participou de algo do gênero.  Mas assistindo à picuinha, foi difícil não sentir o ar rarefeito do abismo entre o discurso carioca-muito-alegre-e-festivo, de um livro do Ruy Castro, e o instinto bárbaro de competitividade que deduz toda relação como o enfrentamento constante entre campeão e perdedor (ou malandro e otário, como se fala aqui). Sei que muitos dirão que isso não passa de uma faceta do que chamamos vulgarmente de jeitinho brasileiro. E é verdade. Esse tipo de argumento já circulou de formas análogas. Da cordialidade atestada por Sérgio Buarque às observações sobre a formação elitista do estado brasileiro, quem quer que tenha se interessado pelas singularidades da esfera pública por aqui já reparou na estranha geografia do público-privado e a tácita convicção de que por trás do hedonismo nacional se esconde uma forma bárbara de capitalismo que celebra a agressividade competitiva dos reis do camarote. Ali, no calor daquele maldito ônibus, não foi preciso pensar em nada disso, a cena bastava.

    A manifestação de cada um    

    Cada um na sua, todos contra todos. Como sociedade civil, essa é a verdadeira fórmula do fracasso. O episódio me chamou atenção por acontecer justamente durante as últimas grandes manifestações. Quando a maioria desistiu de levantar do sofá e pintar a cara, professores, motoristas de ônibus e garis fizeram greve e protestaram de forma categoricamente brasileira: isolados. É verdade que os garis cariocas tiveram relativo apoio popular. Foi o suficiente para reverter a aliança entre prefeitura e sindicato que tentou (sem sucesso) transformar o movimento em ilegal. Motoristas e professores foram menos felizes, e o marasmo cívico garantiu a manutenção do status quo e a prioridade na Copa.

    Os professores municipais do Rio de Janeiro perderam seu salário depois da proibição informal de greves em períodos festivos na cidade. Alguns também ficaram sem emprego. O que fazer? Naquela altura o gigante voltara a cochilar e a imprensa transformara em monstros os poucos que participavam de mobilizações que não fossem exclusivamente as de sua categoria. De qualquer forma, todos foram, em maior ou menor grau, castigados pela polícia. Essa, por sua vez, também tentou entrar em greve, mas não foi muito longe.

    Como aos dois motoristas raivosos de Copacabana, faltou quem lhes dissesse que dividiam o mesmo barco. A verdade é que a manutenção da segunda pior distribuição de renda em uma das maiores economias do mundo é garantida por uma estrutura muito segura e estável. E, parte dessa estrutura, sem dúvida se encontra na divisão de esferas que competem ao invés de colaborar. A própria PM se encontra presa a um curioso dilema. Em um país onde questão social é problema de polícia, a PM trabalha contendo e apaziguando distúrbios resultantes da ineficácia e abandono do estado. O resultado é uma guerra civil não declarada. De um lado, há dez mil desaparecidos suspeitos de terem sido mortos em confronto com a polícia entre 2001 e 2011; e de outro, policiais no Brasil tem três vezes mais chance de morrer do que em qualquer outro país. Em outras palavras, servir como linha de frente da defesa do status quo brasileiro não tem dado muito certo para a própria polícia.

     

    Contragolpe do Estado

    Quem quer que tenha se impressionado com a massa que tomou as ruas em 2013 não deve ter se surpreendido com o contragolpe proporcional do Estado brasileiro. Como já é uma tradição por aqui, nada mudou. O suspiro de vida que a sociedade civil do país arriscara foi rapidamente contido pela estrutura corporativista do Estado. Órgãos e instituições que deveriam operar como antagonistas ou, no mínimo, reguladores do Executivo, carecem de qualquer autonomia. Não que a democracia brasileira seja alérgica à participação cívica, mas o que fazer quando os instrumentos de uma sociedade civil livre se encontram sob controle do próprio Estado, que deveriam regular? Os sindicatos são (supostamente) livres, mas a filiação com partidos faz com que a defesa de interesses da categoria seja sempre posta em segundo plano (especialmente quando as lideranças sindicais têm alguma aspiração a cargos públicos); a imprensa, baluarte da liberdade, é controlada majoritariamente por quatro famílias com vínculo umbilical com o poder público; a universidade, polo do livre pensamento, tem seus programas financiados por órgãos governamentais que julgam o que é digno de ser pesquisado.

    Não surpreende que baste ao próprio Estado o reforço de forças policiais para conter o que parecia ameaçar sua estabilidade operacional. Pasteurizados, desistimos de acreditar em política, em livre manifestação. Basta assistir sentado ao noticiário com a consciência livre de que tudo se resolve (apenas) nas eleições. Para um Estado paternalista, nada mais adequado que uma sociedade civil infantilizada.

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