Quem tem medo de vacina?

No início do século XX, tratamentos bacteriológicos causaram revolta e desconfiança até entre médicos e cientistas

Jorge Augusto Carreta

  • Durante a manhã, o médico Francisco Fajardo trabalhou normalmente. À tarde, porém, pediu licença a uma paciente e foi se vacinar. Misturou na seringa a vacina e o soro antipestosos (contra a peste bubônica) e os aplicou na região abdominal. Pouco depois das três horas da tarde, vestiu-se e voltou à sala para continuar a consulta. Alguns minutos depois, a paciente o olhou assustada: estava muito pálido. Em seguida, suas orelhas ficaram vermelhas e os olhos injetados, e surgiram manchas rubras no rosto. Com falta de ar, o médico caminhou para a sala onde pouco antes se automedicara e deitou-se na cama. Esfregava a região do coração e pedia o aparelho de respiração artificial. O doutor Carlos Seidl, que estava no consultório, veio em socorro do colega. Pouco depois, Fajardo perdeu os sentidos. Vários outros médicos acorreram à clínica, entre eles Rocha Faria, Miguel Couto, Chapot Prévost, Azevedo Sodré, Vieira Souto, Oswaldo Cruz e Fernando Magalhães. Durante o resto do dia, autoridades como o Barão do Rio Branco e o general Quintino Bocaiúva também passaram pelo local onde agonizava Fajardo. Nem toda essa assistência foi suficiente: ele faleceu pouco depois das 11 da noite.

    A morte do médico, ocorrida em 6 de novembro de 1906, consternou o Rio de Janeiro. Foi lamentada na Câmara e no Senado, e até o presidente da República, Rodrigues Alves, mandou um representante ao enterro, o que atestava o prestígio do médico e pesquisador. Fajardo era colaborador próximo de Oswaldo Cruz, o diretor do Instituto Soroterápico Federal – também conhecido como Instituto de Manguinhos – e da Diretoria Geral da Saúde Pública. Por isso mesmo, a provável causa de sua morte foi um choque: a dose do soro antipestoso que se aplicou havia sido produzida no Instituto Soroterápico. Ele já havia se vacinado antes e o fazia para se proteger, pois atendia a pacientes com suspeita de contaminação por peste bubônica e outras doenças transmissíveis.

    Oswaldo Cruz chegou a especular se a morte se dera por conta de uma anafilaxia (reação ao soro). Miguel Couto deu como causa mortis “toxemia, sideração [aniquilação] dos centros bulbares”. O caso repercutiu ainda mais porque foi descrito em detalhes pelo Jornal do Commercio do dia seguinte. O relato coube ao jornalista Joaquim de Lacerda, que acompanhava a esposa na consulta interrompida e testemunhara tanto a inoculação da vacina quanto a agonia do médico.

    O acidente que levou a vida de Fajardo botou lenha na já intensa discussão sobre a confiabilidade das vacinas e dos soros produzidos a partir do conhecimento da bacteriologia, ramo então recente da biologia cujo representante mais destacado era o químico francês Louis Pasteur (1822-1895). O debate se arrastava desde o final do século XIX, no Brasil e no exterior. Em 1904, a Revolta da Vacina – movimento popular ocorrido na capital federal em reação à vacinação obrigatória instituída por lei defendida por Oswaldo Cruz – indicava a ausência de consenso sobre o uso de vacinas e soros. E isso não se restringia à “população ignorante”. Entre os próprios médicos não havia certeza sobre o benefício desses novos produtos.

    Oswaldo Cruz enfrentou forte oposição desde que assumiu a Diretoria de Saúde Pública, em 1903. Aos 30 anos, o médico tentava sanear a capital do país, vista no exterior como um antro de doenças e insalubridade. Seu primeiro objetivo foi a erradicação da febre amarela, doença transmitida por pernilongos. Os jornais noticiavam abusos cometidos pelas equipes de “mata-mosquitos” da Diretoria de Saúde: invasão de casas, destruição de móveis e roupas e uso de produtos químicos que incomodavam as pessoas. Até mortes foram relatadas pelo Correio da Manhã – como a da menina Iracema, em 1904, supostamente envenenada por ácido fênico (usado nas ações dos mata-mosquitos).

    Da mesma forma, havia desconfiança sobre a eficácia do soro antipestoso. Em carta enviada em 1901 a Oswaldo Cruz, o doutor Miguel Pereira, membro da Academia Nacional de Medicina, expôs seu ceticismo em relação à utilização do soro contra a peste bubônica. Em carta para Oswaldo Cruz, de 7 de novembro de 1901, dizia Miguel Pereira: “Sei, pelo que tenho lido, que a aplicação de soro tem reações normais e agora sei, pelo que observei em dez imunizados, que estas reações nem sempre são convenientes e que desses muitos, os falecimentos são de insólita gravidade. Nestas condições particularizando as medidas profiláticas ao caso de morte do meu pranteado Mestre [o professor Francisco de Castro] cujo mal, a despeito da rudimentar higiene que se lhe apôs, não estendeu o seu raio de disseminação, eu cheguei a temer mais do soro, qualquer que ele seja, venha de onde vier, preparado por este ou por aquele, do que da própria peste e, de conformidade com este meu modo de pensar, tenho sempre agido com a maior franqueza certo de que nesta opinião ninguém acharia sentido de hostilizar um amigo, que prezo no mais alto ponto, nem encontraria elementos para urdir a intriga que por aí anda desenfreada”.

    No ano seguinte, Oswaldo Cruz publicou um livro intitulado Dos acidentes em soroterapia, no qualprocurava provar que não havia perigo na administração de soros. Ressaltava que na Europa também houvera forte resistência contra a prática, mas com o tempo a técnica havia sido apurada e os poucos casos de intoxicação praticamente desapareceram. Para reforçar seu argumento, fornecia dados estatísticos sobre o uso do soro do Instituto Soroterápico: de 123 casos observados, 58 apresentaram algum tipo de reação, benigna ou grave, mas não se havia registrado nenhum caso de morte.

    Médicos e cientistas renomados trocavam correspondências reafirmando boa dose de incerteza associada à utilização da soroterapia. Vital Brazil, Francisco Fajardo e Eduardo Chapot Prévost comparavam suas experiências com as de Oswaldo Cruz e relatavam suas dificuldades. Os problemas abrangiam questões que iam desde determinar o melhor método de fabricação do soro até os variados efeitos que acometiam os pacientes tratados com ele. Em carta a Francisco Fajardo, datada de 11 de fevereiro de 1902, Chapot Prévost resume os resultados de testes que envolveram 28 homens, 28 mulheres e sete crianças inoculadas com soro e vacina: “Em suma, de todas as pessoas por mim inoculadas não houve uma só que não apresentasse algum problema podendo ser atribuído ao trabalho de imunização”. 

     Oswaldo Cruz mantinha contato com pesquisadores do Instituto Pasteur de Paris, como o ucraniano Alexandre Besredka (1870-1940). Nas cartas trocadas entre eles, aparecia a dúvida sobre qual o melhor método a ser usado na produção do soro antipestoso. Para Besredka, seria aquele obtido a partir de culturas vivas dos micróbios. Mas ele alertava que “a questão das toxinas da peste ainda está sob estudo e até agora ela não passou do setor das pesquisas de laboratório, é bom dizer que até agora não se faz uso em sentido prático”.

    A morte de Fajardo municiou os adversários de Oswaldo Cruz. Benjamin da Rocha Faria, titular da cadeira de Higiene da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e ex-professor de Cruz, não perdeu a chance de espicaçar seu antigo aluno. Ele prestara socorro a Francisco Fajardo e atribuiu o acidente ao soro do Instituto Soroterápico. O clima também piorou dentro do Instituto, chegando à troca de acusações entre os cientistas quanto à responsabilidade sobre o soro que teria matado o colega médico.

    Se havia tanta incerteza em relação ao uso de soros e vacinas, por que Oswaldo Cruz mantinha-se enfático em afirmar a segurança dos produtos do Instituto Soroterápico? A estratégia do sanitarista é compreensível: admitir a possível debilidade da sorologia poderia colocar em risco todo o seu empreendimento na Diretoria Geral de Saúde e o projeto de pesquisa daquele instituto.

    As controvérsias sobre o uso dos produtos derivados do conhecimento bacteriológico mostram algo que vai além da própria biologia e diz respeito à lógica do conhecimento científico: ele não se impõe por sua própria força, pela sua “racionalidade”, mas consolida-se em processo tumultuoso e falível. Dificuldades que não podem ser mostradas em público, sob pena de desacreditar a ciência e o poder dos médicos.

    A despeito de toda a polêmica e resistência, a atuação de Oswaldo Cruz e seus colegas foi muito importante para consolidar a crença dos médicos e do público nos soros e nas vacinas. Após aquele período turbulento, estabeleceu-se a confiança nos produtos da bacteriologia, que resultaria no sucesso das campanhas de vacinação no Brasil.

    Jorge Augusto Carreta é professor das Faculdades de Campinas e autor de O micróbio é o inimigo: debates sobre a microbiologia no Brasil (1885-1904), (Unicamp, 2006).

     

    O pioneiro Pasteur

    Responsável pela consolidação da teoria que afirmava que microrganismos (bactérias e vírus) eram os agentes causadores de diversas doenças, o francês Louis Pasteur (1822-1895) começou suas pesquisas científicas investigando as propriedades dos cristais. Em seguida, interessou-se pelas fermentações e descobriu um método para melhor conservar vinhos, que consistia em aquecê-los até a temperatura de 55 graus. O processo ficou conhecido como pasteurização e é usado até hoje na indústria alimentícia. O estudo das fermentações aguçou sua curiosidade sobre os microrganismos. Em 1880, começou a pesquisar a raiva, doença que acometia animais e podia ser transmitida ao homem. Elaborou a primeira vacina antirrábica e testou-a em 1885. Pesquisou, então, a produção de vacinas contra outras moléstias causadas por microrganismos, como o antrax e a cólera aviária. Em 1888 foi fundado o Instituto Pasteur de Paris, destinado a estudar as doenças infecciosas e a produzir vacinas e soros para combatê-las. Foram fundadas, em todo o mundo, instituições homônimas, inclusive no Rio de Janeiro (1888) e em São Paulo (1903), este último ainda em atividade.

     

     

    Saiba mais - Bibliografia

    BENCHIMOL, Jaime.Dos micróbios aos mosquitos: febre amarela e a revolução pasteuriana no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz/ Ed. UFRJ, 1999.

    CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

    CUKIERMAN, Henrique. Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a história da ciência no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ Faperj, 2007.

    PEREIRA, Leonardo A.M. As barricadas da saúde: vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da Primeira República. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2002.
     

    Internet

    Linha do Tempo Fiocruz:

    www.fiocruz.br/linhadotempo/linha_do_tempo.html

    Leia:Do Instituto Soroterápico Federal à Fiocruz” em rhbn.com.br/c/6130

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